O número de desastres naturais que podem ser associados a perigos geológicos (geohazards) tem crescido significativamente nas últimas décadas, não só no chamado “Terceiro Mundo”, mas também na Europa. Os perigos geológicos mais conhecidos - sismos, erupções vulcânicas, inundações, escorregamentos de terrenos - são em regra desastrosos, frequentemente rápidos e afectam muitas pessoas, propriedade e ecossistemas. Mas existem outros que, não causando catástrofe imediata, podem produzir danos muito severos ao longo dos anos, como a contaminação de solos e aquíferos ou a erosão costeira.
Tal como os recursos geológicos, também os riscos geológicos não estão equitativamente distribuídos no globo. As áreas urbanas parecem atraí-los. De facto, o mesmo perigo geológico terá muito mais impacte numa cidade, onde muita gente vive junta, do que nas zonas rurais. Por outro lado, o Homem, especialmente em grandes concentrações urbanas, pode despoletar esses perigos. A expansão urbana descontrolada tende frequentemente para áreas susceptíveis a desastres naturais, como leitos de cheia, encostas instáveis e erodíveis, desprezando as condicionantes geológicas e ambientais. Quando o desastre ocorre pode causar danos descomunais nas economias e nos bens das comunidades locais. Dada a concentração de capitais nas cidades existe uma relação forte entre perdas económicas e urbanização.
Por sua vez, quando se lida com risco e gestão do risco é importante estabelecer as ligações entre perigos potenciais naturais e tecnológicos, incluindo as que estão na origem dos conflitos bélicos. Por exemplo, a escassez de recursos hídricos leva à luta pelo controlo das fontes de abastecimento de água superficial e subterrânea: a ONU revelou que 263 bacias hidrográficas são compartilhadas por duas ou mais nações, criando conflitos em potencial para cerca de 40% da população global.
É um facto que os custos dos chamados desastres naturais estão a subir em todo o mundo, constituindo uma grande ameaça ao desenvolvimento sustentável. A questão é saber que parte desses custos pode ser atribuída a fenómenos induzidos pelas actividades humanas. Para isso é necessário efectuar uma análise integrada da gestão multi-risco, considerando as componentes do risco naturais e as induzidas pelo Homem.
A combinação de perigos potenciais naturais com ausência de gestão do risco tem como resultado o aumento da vulnerabilidade urbana. Por exemplo, o mau planeamento, combinado com drenagem deficiente tornam áreas urbanas vulneráveis às “inundações relâmpago”. Variações bruscas (seja rebaixamento ou elevação) do nível freático; subsidência devido a carso, ou a trabalhos mineiros antigos; falhas activas (geradoras de vibrações, ou mesmo ruptura superficial de terrenos); fraca capacidade de carga dos solos de fundação e instabilidade de taludes, são outros tantos perigos geotecnológicos que contribuem para a vulnerabilidade urbana.
São estas e outras questões relacionadas com perigos e riscos geológicos, geotecnológicos e geoambientais que gostaríamos de ver tratadas nesta nossa nova revista, quer seja na forma de apresentação de conceitos e técnicas inovadoras, de casos de estudo, ou na divulgação de resultados de projectos de investigação. Assim consigamos sensibilizar a comunidade técnica e científica ligada a esta problemática para fazer descolar do chão este novo projecto, que se quer aglutinador de todos quantos queiram dar a sua contribuição.