Dia 12 de Fevereiro descarrilou um comboio na linha do Tua causando a morte de 3 pessoas e 2 feridos. Embora a causa deste acidente tenha, ao que se pode apurar até ao momento, uma causa geológica, não é deste fenómeno que aqui vou escrever. A linha do Tua tem sido ao longo dos tempos vetada a um abandono controlado mas que torna cada vez mais difícil a aposta local num turismo de qualidade. Mas que turismo? Esta linha é a melhor forma de conhecer o vale do Tua. Confesso que nunca fiz a viagem, mas os relatos são por si suficientes para me dar esta confiança. Quase sempre acompanhados com inúmeras fotografias, encontram-se com alguma facilidade dezenas de relatos de viagens na linha do Tua através de um simples clique na internet. Foi isso que eu fiz e confesso alguma inveja por nunca ter feito a viagem. Mas conheço a foz do Tua, as termas de São Lourenço, e muitas das aldeias e vilas que cresceram pelo Tua. Quando soube que a EDP projectava uma barragem para a foz deste rio fiquei um pouco preocupado. Embora esta zona não seja abrangida pelo alto Douro Vinhateiro (património mundial) é parte integrante da Região Demarcada do Douro (RDD), região reconhecida internacionalmente pelo seu vinho. Certo que existem muitas vinhas abandonadas, muitos terrenos por cultivar, e um tipo de cultivo difícil, impróprio dos tempos modernos. Mas também é certo que a classificação de Património mundial de outras zonas da RDD existe por se considerar que esse tipo de cultura é uma mais valia para o Mundo em que vivemos. 
Rio Tua (foto de António Amorim em http://fotos.afasoft.net/div/tua.html) Ora então vamos analisar esta situação. A albufeira da barragem irá alagar parte dos terrenos cultiváveis desta região e, segundo alguns agricultores, a melhor parte (in. http://www.lamegohoje.com). A albufeira irá inundar parte da linha do Tua impedindo que aqueles, como eu, que nunca tiveram hipótese de fazer a viagem a façam de futuro. Este fecho da linha não me preocupa só por Eu não poder fazer a viagem, não! Mas e aqueles que dela dependem para fazer o seu dia a dia? Certo que ultimamente não são muitos, mas porque efectivamente tudo tem sido feito para que a linha morra e, mais uma vez, dando primazia à circulação rodoviária. Ora, eu venho para a faculdade todos os dias de carro, porque os transportes não me servem. Não há que criticar quem o faça em Mirandela. Então temos uma linha em abandono, uma vinha em abandono, um território despovoado, uma população em êxodo em busca de trabalho, e uma região de beleza natural impar e com potencial turístico e vinícola elevado. É intenção da barragem criar emprego directamente, dotar a região de uma estrutura que permita os desportos náuticos, criando assim turismo e mais emprego e fechar de vez uma linha pobre, mal mantida, e que serve tão poucos. Com uma capacidade de 208 MegaWatts servirá 35 000 pessoas. Pesados os prós e os contras a primeira análise diz-nos que devemos apoiar a construção da barragem. O que está decadente, abandonado fica e a barragem vai reanimar a região. Parece-me a solução fácil. Não concordo com a construção da barragem pois sei que depois de construída pouco haverá a fazer pelo património natural que a região abraça. Devemos apoiar esta e outras regiões deprimidas, sim. Mas dotando-as de mecanismos que permitam o aproveitamento do que de melhor ela contém. Neste caso, o vinho, a paisagem e uma oportunidade única de se desenvolver em consonância com aquilo que a natureza nos deu, a linha do Tua. Existe já um conhecimento geral de que é belo e um reconhecimento internacional de que vale a pena manter belo. Será que a electricidade produzida, o banho na albufeira e o passeio nas motas de água pagam isso? Sei que muitos, mesmo os que moram lá, podem ser favoráveis à construção da barragem, como sei que outros não são. Mas, para mim, o que esta região precisa é de uma linha do Tua a funcionar bem, de vinhas a produzir, de publicidade positiva e de muitos a fazer por ela e não contra ela. Precisa de turismo de qualidade e de formar escola na arte de bem receber e de bem manter o que temos. Precisa de se dinamizar mostrando com orgulho como de doma um território tão inóspito como este. E o emprego? Não há soluções milagrosas. Mas o que me parece óbvio é que o abandono nunca criou emprego. Deixo a pergunta. A barragem da Foz do Tua, deve ou não ser construída? |