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>> Quarta-feira, 31 de Janeiro de 2007
Mudanças Globais II
 

A capacidade de produzir impactes no ambiente geológico é uma característica intrínseca da Humanidade desde os primórdios, e como tal reconhecida desde há séculos.

B. Cotta afirmava, em 1865: acredito que a superfície actual da Terra, com todas as suas formas individuais, tem vindo a ser gradualmente desenvolvida numa relação recíproca entre o Homem e a Natureza.

Então o que há de novo nessa relação? O carácter global das transformações de que actualmente se é capaz e a velocidade que se lhes pode imprimir.

De facto, a magnitude dos efeitos das actividades humanas no ambiente tem-se manifestado numa relação directamente proporcional ao crescimento económico.

É possível e desejável o desenvolvimento económico. Mas, de acordo com a Declaração de Tóquio (World Commission on Environment and Development, 1987), ele deverá ser um desenvolvimento sustentável, definido em termos simples como uma forma de abordagem do progresso que vá ao encontro das necessidades do presente sem comprometer a capacidade de as futuras gerações poderem dar resposta às suas.

Segundo esta perspectiva as actuais gerações poderão estar já a pagar os erros cometidos pelas anteriores.

De facto, o consumo desenfreado de recursos que resulta da não consideração integrada do binómio “desenvolvimento económico”/“conservação dos recursos” parece estar na base do desencadeamento dos grandes desequilíbrios ambientais da nossa era, com destaque para as alterações climáticas globais.

A New Economics Foundation revelou que no dia 9 de Outubro de 2006 a Terra entrou em défice ecológico. Em 1987 (o primeiro ano em que foi calculado) o dia em que se atingiu o défice ecológico foi a 19 de Dezembro. Em 1995 foi a 21 de Novembro.

Tal significa que estamos a consumir mais recursos naturais do que aqueles que a Terra consegue renovar a cada ano, a um ritmo cada vez maior.

Alguns números recentes relativos ao consumo:

  • O consumo do petróleo subiu 1,3% em 2005, depois de ter subido 3,4% em 2004, a taxa mais elevada de há 16 anos; só a China, o 2º maior consumidor mundial (atrás dos EUA), aumentou o consumo em 11%; em contrapartida a produção de petróleo baixou em 33 dos 48 maiores produtores mundiais; nos EUA a produção de petróleo baixou de 8 milhões de barris em 1970 para 2,9 milhões em 2004;
  • em 2005 foram atingidos novos máximos na produção de aço e de alumínio e a produção de veículos atingiu um recorde de 45.6 milhões de unidades.
  • em 2004 a desmatação na Amazónia aumentou 40% em comparação a 2001, e o Brasil regista o segundo maior aumento em 15 anos; a floresta a nível mundial é, hoje em dia, metade da que existia há 8.000 anos;
  • metade das zonas húmidas da Terra (estuários, lagoas, etc…) foi destruída desde 1900.

E alguns números relativos às mudanças climáticas globais:

  • O ano de 2005 foi o ano mais quente desde que há registos - 1880 (NASA’s Goddard Institute of Space Studies); os 5 anos mais quentes ocorreram todos desde 1998.
  • em 2005 a concentração média de CO2 na atmosfera atingiu novo recorde: 379,6 ppm.
  • observações de satélite do Oceano Árctico mostram que a área coberta de gelo é a menor dos últimos 20 anos; o Oceano Árctico perderá cerca de metade do seu volume de gelo entre 1950 e 2050, sendo provável a sua circum-navegação já na próxima década.
  • os glaciares perdem, em cada ano que passa, 90 km3 de gelo
  • nas últimas 5 décadas a espessura média da massa global de gelo do planeta diminuiu cerca de 14 metros.
 
por Carlos Nunes da Costa comentar (post sem comentários)
 
>> Terça-feira, 23 de Janeiro de 2007
O parque de campismo e a toalha de praia. Pura provocação
 

Quando chego à praia tenho por norma estender a toalha num sítio onde sei que as ondas não chegarão quando a maré encher. Por vezes, quando vou a praias mais procuradas, tal não é possível e acabo por estender a dita toalha num sítio onde sei que se vai molhar quando as ondas chegarem.

A maré começa a encher e junto-me a tantos outros numa grande obra na tentativa de manter a minha toalha seca. A construção de um dique de protecção e consequente vala de drenagem. É uma obra frequente pelas praias deste país durante os meses de Verão. Mas, infelizmente, todos nós sabemos que esta obra só adia o problema. Mais tarde ou mais cedo vou ter que pegar na minha toalha, chinelos e camisola e levá-los para um sítio onde estejam a salvo dessa grande má fortuna, a maré cheia. A maioria das vezes confesso que o alvo da minha deslocação é a esplanada...

Hoje juntei-me a uns colegas e fomos a São João da Caparica observar por nós próprios os danos provocados pelo mar nos últimos meses e particularmente nas últimas noites de marés vivas. Confesso que fiquei espantado quando me apercebi que em toda aquela zona encontrava um paralelismo tremendo com a lusa luta de salvar a toalha. Fiz algumas fotografias que aqui partilho convosco e pergunto:

Quando a toalha se está quase a molhar o INAG vem pôr areia à minha frente, ou simplesmente... tiro a toalha?

                

Dumper a descarregar areia junto ao bar que foi demolido (esquerda) e reforço de areia no cordão dunar (direita).

                

Reforço de areia no cordão dunar (esquerda) e vala de protecção do parque de campismo (direita).

Vala lateral de protecção do parque de campismo.

 
por Marco Rocha comentar/ver comentários (1 comentário)
 
Armazenamento de dióxido de Carbono em formações geológicas. Uma solução?
 

Com o aumento da influência humana nos factores condicionantes das alterações climáticas e, naturalmente, com o crescimento de conhecimento que o Homem possui sobre esta influência tornou-se necessário a aplicação de medidas que contrariem estas tendências de desequilíbrio.

Com a entrada em vigor do Protocolo de Quioto torna-se premente a aplicação de novas tecnologias alternativas às emissões de dióxido de carbono. Apesar da alternativa principal seja a de não emitir este composto através da utilização de combustíveis mais limpos, certo é que a sociedade contemporânea está demasiado dependente dos combustíveis fósseis para que se adivinhe esta mudança a curto prazo.

Com base neste último ponto foi então decidido aplicar vários métodos de fomento à diminuição das emissões de dióxido de carbono para a atmosfera. A criação a nível europeu (Directiva 2003/87/EC) do Comércio Europeu de Licenças de Emissão vai precisamente de encontro a essa pretensão. Foram atribuídas licenças de emissão de dióxido de Carbono a estados membros e a empresas, podendo estas ser negociadas num então criado mercado do Carbono, naturalmente responsável pela definição do preço da licença correspondente à emissão de uma tonelada de CO2.

Uma alocação excessiva do número de licenças (cerca de 340 milhões a mais) levou a um crash da bolsa de quase 70% entre o ínicio e o final de 2006. Esta tendência implica que no final do ano 2007 as licenças estejam a ser transaccionadas a preços perto do 0€. Contudo com a revisão prevista para a segundo período (2008 a 2012) espera-se que os preços subam de tal forma que uma licença de emissão comprada em Dezembro de 2006 para ser usufruída em Dezembro de 2010 já atinge o preço de 19.5€.

Segundo a Agência Internacional de Energia a produção anual mundial de dióxido de Carbono fruto da queima de combustíveis foi em 2001 de 24 Gt e prevê-se que em 2030 chegue às 38 Gt.

Assim sendo, espera-se que as tendências de evolução deste mercado sejam de aumento do preço da emissão de dióxido de Carbono, corroborando assim a teoria que defende a não emissão de CO2 como economicamente, para além de ambientalmente, mais correcta.

É precisamente aqui que entra a Captação e Armazenamento de CO2 (CCS – Carbon dioxide Capture and Storage). A diminuição da emissão de dióxido de Carbono através do seu armazenamento é o objectivo desta nova tecnologia. O armazenamento em formações geológicas competentes para tal é uma das formas que esta tecnologia preconiza como solução para este problema.

Para o armazenamento em formações geológicas sugerem-se essencialmente três tipo de reservatórios: reservatórios de hidrocarbonetos explorados, jazigos de carvão inexploráveis e aquíferos salinos profundos.

Opções de armazenamento em formações geológicas (IPCC, 2006)

Este tipo de armazenamento possui porém alguns problemas, nomeadamente o tipo de reservatórios capazes, a capacidade dos reservatórios e o perigo de fuga do dióxido de carbono.

Qualquer uma destas questões é actualmente bem conhecida e consensualmente considerada menor face aos potenciais benefícios retirados da aplicação desta tecnologia (IEA, 2001).

Os jazigos de hidrocarbonetos já explorados são reconhecidos pela sua boa capacidade como reservatório e por constituírem formações estanques face à possibilidade de fuga do CO2. Além disso, o facto de se encontrarem bem estudados do ponto de vista geológico contribui bastante para a valorização desta opção. Em jazigos em exploração é valorizada a contribuição da injecção de CO2 mantendo assim a pressão do reservatório e aumentando a exploração deste em cerca de 10 a 15% (EOR – Enhanced Oil Recovery). A capacidade mundial estimada de armazenamento é de cerca de 920 Gt.

Os jazigos inexploráveis de Carvão surgem como outra alternativa para o armazenamento. Apesar de uma menor capacidade, cerca de 15Gt mundiais, o processo pelo qual o dióxido de Carbono é adsorvido pelo carvão, assim o retendo permanentemente, torna esta opção bastante atractiva. Além disso a injecção de CO2 neste tipo de jazigos vai provocar uma substituição do metano aqui alojado por CO2. Desta forma o gás pode ser explorado rentabilizando a eliminação do dióxido de Carbono.

Por último, a injecção em aquíferos salinos profundos. Este tipo de reservatório recolhe a maior cota de armazenamento de todos com 400 a 10 000 Gt de capacidade mundial. O aproveitamento de aquíferos profundos, inexploráveis face ao carácter salino das águas, pode vir a ser a melhor solução. Só na Noroeste Europeu estima-se uma capacidade de armazenamento de 800 Gt de CO2. Na Noruega já existe uma unidade de exploração de Gás natural (Sleipner Vest project, Statoil) que utiliza este método separando CO2 do gás explorado e re-introduzindo-o num aquífero salino a cerca de 800m de profundidade. Esta unidade injecta cerca de 1Gt de CO2 por ano. Existe ainda a possibilidade de, neste tipo de reservatórios, se darem reacções químicas entre o CO2 e alguns minerais formando carbonatos e assim armazenando-o permanentemente.

O armazenamento subterrâneo traduz custos para o produtor de CO2, porém e descontando os custos de captura (ainda elevados mas previstos diminuir com próximos avanços tecnológicos), estes custos tornam-se baixos rondando os 8.5US$/tCO2 (monitorização incluída). Os custos da avaliação das condições geológicas (geological assessment) propensas a um projecto deste tipo são insignificantes face aos custos totais duma operação deste tipo podendo rondar os 0.1US$/tCO2 (Friedmann et. al., 2006)

Este tipo de soluções carecem ainda de mais estudos, nomeadamente a nível nacional mas sempre conscientes que devem ser uma solução a ter em conta e que num futuro próximo poderão ser o rumo mais apropriado a tomar.

Agradecimentos:

Gostaria de agradecer à Engª Patrícia Cardoso (Consultant da Ecoprogresso) pelos seus úteis esclarecimentos sobre o mercado do Carbono.

Referências:

IEA Greenhouse Gas R&D Programme (2001) – Putting Carbon back to the ground. IEA. ISBN:1 8988373 28 0. 28 p.

Friedmann, S. J.; Dooley, J. J.; Held, H.; Edenhofer, O. (2006) – The low cost of geological assessment for underground CO2 storage: Policy and economic implications. Energy Conversion and Management, Elsevier. Vol. 47. Amsterdam. pp. 1984-1901.

Intergovernmental Panel on Climate Change (2006) - Carbon dioxide capture and storage - Summary for Policymakers and Technical Summary. IPCC. ISBN 92 9169 119 4. 53 p.

Ecoprogresso (2007) - EcoTradeNEWS. Newsletter da EcoProgresso. Número 5, Janeiro. 4 p.

 
por Marco Rocha comentar (post sem comentários)
 
>> Quinta-feira, 18 de Janeiro de 2007
Mudanças globais - I
 

Uma nova época geológica, o Antropocénico (Crutzen & Stoermer, 2000), foi proposta para descrever as últimas centenas de anos, desde que a espécie humana se tornou a força ambiental dominante, em particular após a revolução industrial.

O crescimento demográfico acelerado, juntamente com a intensificação da actividade humana no século XX incrementou enormemente a utilização dos recursos, nomeadamente na agricultura, floresta, pescas, industria, transportes e energia, e levou à expansão brutal da urbanização.

O funcionamento do sistema Terra é actualmente influenciado pelo Homem de várias formas: os seus efeitos são comparáveis às forças maiores da Natureza - como os eventos sísmicos e vulcânicos – tanto em extensão como em magnitude, resultando em múltiplos impactes ambientais globais, de que o aumento da temperatura devido aos gases com efeito de estufa é apenas o exemplo mais gritante.

Indicadores que mostram a influência humana na composição da atmosfera desde a revolução industrial (Fonte: IPCC - Intergovernamental Panel on Climate Change)

Mas a influência antrópica é marcante apenas nos últimos séculos? Certamente que não.

O Homem foi desde sempre um poderoso factor de alteração do meio. A primeira manifestação desse poder terá consistido na destruição de largas parcelas de floresta tropical (por exemplo, na China), através do domínio da prática do fogo, com vista a garantir áreas de pastagem.

Ao consolidar a sua característica gregária a ocupação humana acentuou a sua influência sobre a evolução das componentes geoambientais que, por sua vez, condiciona a qualidade de vida do Homem.

Em alguns casos o declínio das civilizações pode estar associado à degradação dessas mesmas condições. Veja-se, por exemplo, o actual Iraque, berço dos impérios sumérios e babilónios, em cuja zona de influência se estende agora o deserto: no avanço do delta do Tigre e do Eufrates sobre o Golfo Pérsico estão depositados os solos ricos da antiga Mesopotâmia.

http://visibleearth.nasa.gov

Referências
Crutzen, P. J.& E. F. Stoermer (2000) The Anthropocene. Global Change Newsletter. 41: 12-13.
IPCC (2001) Third Assessment Report - Climate Change 2001.IPCC/WMO/UNEP.

 
por Carlos Nunes da Costa comentar (post sem comentários)
 
>> Quarta-feira, 17 de Janeiro de 2007
GeoRiscos. BLOG porquê?
 

BLOG?

BLasts Over Geoenvironment?

Brief Lightnings On Geoenvironment?

Better Links On Geoenvironment?

 
por Carlos Nunes da Costa comentar (post sem comentários)
 
GeoRiscos.BLOG - porquê?
 

Este é o primeiro post do que esperamos serem muitos.

Embora historicamente a Geologia e suas disciplinas sejam relegadas para planos inferiores de atenção pública, certo é que é precisamente esta a área do conhecimento científico que explica a génese, construção e modelação do mundo que habitamos. Como será possível explicar problemas tão actuais como o aquecimento global e as suas consequências sem antes percebemos como funciona o sistema Terra e suas alterações temporais? Não podemos tentar perceber porque um carro não anda se não possuirmos conhecimentos, por mais básicos que sejam, de mecânica automóvel. Esta é a máxima de uma corrente que leva, entre outras actividades à criação deste espaço. A divulgação da Geologia e das suas disciplinas enquanto agentes de interacção no quotidiano da nossa vida.

Uma casa que não pode ser construída porque o terreno subjacente não suporta os esforços de fundação. Uma cidade que recorrentemente é alvo de cheias porque foi construída no leito de cheia de uma linha de água. Uma zona ribeirinha que não pode ser aproveitada turisticamente porque os terrenos estão contaminados. Uma praia que insiste em recuar fruto da acção do mar apesar dos esforços do Homem. Uma estrada fechada devido a um movimento de terras. E são tantos os exemplos de momentos da nossa sociedade e da nossa vida em que as situações de risco geoambiental podem ser impeditivas ou potenciadoras da decisão.

Esperamos estar a contribuir para uma mais vasta formação da comunidade internauta e para uma salutar discussão sobre os temas que aqui serão apresentados.

 
por Marco Rocha comentar/ver comentários (1 comentário)
 
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